Como fotógrafo, sei o quanto é importante o enaltecimento da memória de cada pessoa, principalmente em regiões de extrema vulnerabilidade social. Em 2015, pude ter essa certeza de forma ainda mais real ao ser convidado para ir ao interior do Piauí, como voluntário.

Lá, pude documentar as formações realizadas por uma equipe de pedagogos e voluntários nas cidades beneficiadas pelo Projeto Escolas do Sertão, promovido por iniciativa de uma organização social de Joinville, a OMUNGA. Vivi uma experiência fantástica e imaginei que seria difícil de ser superada – mas foi.

No ano seguinte, retornei novamente ao sertão para registrar estas formações e o uso de bibliotecas viabilizadas pelo projeto. Mas, fui também encarregado de circular pelas cidades para conhecer pessoas e suas histórias relacionadas à educação, e claro, fotografar muito.

Nesta oportunidade, conheci muitos idosos e adultos que nunca tiveram acesso à educação, nunca tiveram um lápis ou um caderno e, em alguns casos, nem mesmo sabiam escrever seus nomes.

seis pessoas posando para foto dentro de uma casa no sertão do piauí, sendo elas, três mulheres e três homens, moradores da região e voluntários do projeto omunga

Porém, os olhos deles sempre brilhavam ao falar de seus filhos ou netos que hoje podem ir à escola. Crianças que sentam, muitas vezes, no chão batido de suas casas ou escoram-se em fogões à lenha para fazer suas tarefas e ler os livros emprestados das bibliotecas. Crianças que exalam alegria e não economizam sorrisos quando falam que uma das coisas que mais gostam de fazer é ir à escola.

O registro fotógrafo e fotografado

várias crianças concentradas enquanto uma menina sorri virando uma folha de caderno e olhando para a câmera dentro de uma escola no sertão do piauí
Cada uma dessas expressões que consigo registrar com a fotografia me envolvem ainda mais com o projeto e com a transformação realizada na vida dessas pessoas. Isso porque, para conseguir transmitir a essência destas experiências, é preciso criar relações.

A câmera não pode ser um escudo onde me escondo e me distancio do retratado. Ela tem que ser uma ponte que conecta a alma do fotógrafo e fotografado, unindo-as numa imagem que tocará a alma de quem a verá.

Essa fotografia contribui para o reconhecimento de todos os envolvidos no projeto como agentes ativos no desenvolvimento da educação. Sejam eles os voluntários que viajam centenas de quilômetros para ministrar oficinas pedagógicas, como também os professores e alunos que são beneficiados com o projeto e levam adiante o conhecimento adquirido.

várias crianças dentro de um ônibus junto do fotógrafo voluntário do instituto omunga, todos sorrindo para a foto

A fotografia também, com sua aptidão emocional, tem poder de inspirar novos voluntários, doadores e até mesmo novos projetos como este, que visa um mundo melhor por meio da educação.

Daniel Machado
Fotógrafo, Professor Universitário e Voluntário do Instituto OMUNGA
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