Hoje você vai conhecer a história da professora Fabiana Araújo e suas ações no Projeto Escolas do Sertão.

Confira o depoimento

Meu nome é Fabiana Araújo e sou professora da Rede Municipal de Ensino de Betânia e de Curral Novo do Piauí, cidades do Estado do Piauí. Não sou professora por acaso. Foi um sonho cultivado e regado com muito esforço e determinação. Não foi fácil! As lutas e dificuldades foram muitas, mas a persistência e vontade de vencer eram maiores.

O início dos estudos

Meus pais eram agricultores e morávamos no interior, bem distantes da cidade. É onde moro até hoje, mas, agora, a realidade é melhor. Quem morava no interior enfrentava muitas dificuldades para estudar; foi o que aconteceu comigo e com meus irmãos. Os homens ficavam para ajudar nos trabalhos braçais e as mulheres iam morar na casa de parentes.

Naquela época, não precisava estudar muito para ser professor, bastava a 8ª série e você já estava apta para exercer a profissão. Então, as minhas irmãs foram, estudaram e voltaram para nos ensinar.

Comecei a estudar, juntamente com meus irmãos, primos e vizinhos, lá em casa mesmo, pois não tinha uma escola fixa – só implantavam uma escola onde havia uma quantidade razoável de crianças. Em um quartinho apertado, com uma mesa, alguns banquinhos, cartilhas (fantásticas), um pequeno quadro, a professora e nós. Começamos, encantados, e estudamos dessa forma por dois anos.

Então, construíram uma escola numa localidade a seis quilômetros de distância e tivemos que ir estudar lá. Íamos a pé todos os dias. Aquilo virou rotina e, assim, eu consegui concluir a 4ª série.

Alguns dos meus irmãos nem chegaram até esse ponto, pois tinham que ajudar os nossos pais no trabalho da roça. Nessa época, não encontrava por perto possibilidade para progredir nos meus estudos. Mas era preciso buscá-la, apesar dos obstáculos.

Desafios em busca da educação

Eu era a filha caçula, muito amada pelos meus pais. Nas dificuldades da vida que enfrentávamos, os meus pais sempre enfatizavam o desejo de nos dar estudo para termos um futuro melhor. Mas, para isso, precisaria de interesse, muito esforço e dedicação.

Ainda criança, perdi o meu pai e foi muito difícil, as coisas tornaram-se ainda mais complicadas. Depois disso, a vida da minha mãe estava sem sentido, sem alegria. No rosto dela estampava-se um sentimento de tristeza e preocupação. Além da dor pela perda do meu pai, ela tinha um grande desafio pela frente: dar assistência sozinha aos filhos.

E, diante de tudo isso, eu também me encontrava diante de um grande desafio: deixar minha mãe e meus irmãos e ir embora para dar continuidade aos meus estudos. Imagine como estava o estado emocional de uma criança diante de tudo que ela havia vivenciado! Todos me davam forças para ir adiante e eu fui, passei a morar com parentes.

Só tinha o privilégio de ver minha mãe e meus irmãos três vezes durante o ano: na Semana Santa, nas férias de julho e no fim de ano. Eu era uma menina triste, sem alegria, sem motivos para sorrir. Nessa trajetória, passaram-se dois anos, até que eu concluísse a 6ª série.

Decidi voltar para ficar com minha mãe e com meus irmãos. No ano seguinte, finalmente, disponibilizaram um carro para transportar alunos. Percorria 72 quilômetros de estrada (ida e volta), mas, mesmo assim, eu me sentia feliz, afinal, estava na minha casa, com minha mãe e meus irmãos. Enfrentei riscos, mas consegui superá-los. Conclui a 8ª série e, inspirada na minha irmã e em bons professores que tive, brotava um sonho dentro de mim de ser professora.

 

Busca pela formação profissional

Em seguida, comecei um curso de extensão do Ensino Médio e do Magistério, na modalidade semipresencial. Já em fase de conclusão, em 2004, eu pude começar a dar aulas. Hoje, sou professora efetiva. Graduei-me em Pedagogia, fiz especialização em Psicopedagogia Clínica, depois em Gestão Pública e agora estou cursando especialização do Ensino Médio e mestrado em Educação.

Eu ainda tenho muitas limitações. Além disso, a educação é uma área que requer estudo sempre, mas tenho determinação, persistência e acredito no poder de transformação por meio da educação.

professoras olham atentas à palestra do projeto omunga sobre educação

Não foi sorte, foi determinação. A minha vitória é também da minha família, que colhe os frutos comigo. O meu sonho vem se realizando a cada dia: realizo-me no sorriso das crianças, em cada descoberta, em cada conquista, e a cada vez que posso ajudar minha família a resolver algo burocrático.

Agora, tenho um novo sonho: uma educação de qualidade para as nossas crianças, para que possamos superar a burocracia e driblar a corrupção que viola condutas, valores, direitos e deveres. Para que nossos alunos possam se tornar uma nova geração com os cidadãos que tanto desejamos para nossa sociedade.

professoras e empreendedor social posam juntos para foto em projeto escolas do sertão

Fabiana Araújo
Professora beneficiada pelo Projeto Escolas do Sertão
professora_fabiana@hotmail.com