“Na vida nada é definitivo. Tudo se molda ao acaso do momento seguinte.

Esta frase retrata bem tudo que aconteceu nos últimos anos, da paixão pela comunicação por meio de rádios do segmento jovem, até o atual empreendedorismo social. Desde os dezesseis anos, atuei na área da comunicação, e durante muito tempo, imaginei que a área de atuação de minha carreira estava definida.

A forma como a comunicação dirigida influencia os hábitos, comportamentos, consumo, interesses e o futuro de algumas tribos, sempre gerava motivação para compreender e criar os

melhores cenários para acompanhar a nova geração. E a versatilidade que o rádio se propõe a fazer parte do dia-a-dia de seus ouvintes, gerando bons resultados aos anunciantes, tornava-o, naquela época, um delicioso vício.

Contudo, com o passar dos anos, e, arrisco dizer, com a maturidade, os gostos mudaram e algumas inquietações começaram a pedir mudanças que eu nem sabia quais eram.

Aproveitando a afinidade com projetos sociais, que até então, era um hobby, e por ter amigos que atuavam em Angola (país africano de colonização portuguesa vindo de um pós-guerra com sérias dificuldades sociais e com muita necessidade de voluntários), julguei oportuno vivenciar um período sabático na África para depois ver o que “ia rolar”.

A ideia inicial era passar seis meses do ano 2009 como voluntário nos projetos criados e liderados pela Missão Católica em Angola. Mas confesso que, além das questões relacionadas ao dia-a-dia que me impressionaram nas primeiras semanas, o que mais chamou minha atenção foram as oportunidades comerciais e acabei empreendendo em consultorias comerciais com objetivo de aproximar empresas brasileiras de compradores angolanos. E os trabalhos sociais continuavam ainda como um hobby despretensioso.

Dois anos se passaram, erros e acertos aconteceram, e a sensação de que algo ainda estava incompleto, somado à necessidade de buscar uma vida com mais significado me tirava o sono e também o sono de alguns amigos em função das conversas via web, como é o caso do meu grande amigo Giu Vicente, publicitário de Joinville/SC.

Lembro bem, que em algumas madrugadas, tive os primeiros insights, baseados em educação para crianças que vivem em regiões de extrema pobreza, o desejo de viajar pelo mundo propondo soluções para determinadas comunidades, motivar pessoas e empresas para doarem-se cada vez mais para causas alheias e com isso, encontrar um novo objetivo de vida, algo com mais sentido.

A necessidade de levantar recursos para a viagem do voluntário Douglas Strellow para atuar em projetos esportivos em Luanda em 2012, acabou gerando a ideia de produzir camisetas com mensagens edificantes relacionadas a comportamento, causas sociais e sonhos, e neste caso, a compaixão foi o foco. Em poucas semanas vendemos 200 camisetas, a viagem teve muito êxito e surgiu a sensação de que alguma iniciativa coletiva na prática estava se fortalecendo

Em uma das vezes que retornei para Joinville, uma amiga, Suzana Lopes, também atuante em projetos sociais, me convidou para conhecer a extrema pobreza do Brasil e tive a oportunidade de conhecer o sertão do Sul do Piauí. Lembro que fiquei totalmente surpreso por perceber que ainda existe muita “África” no Brasil e resolvi fazer das necessidades daquelas comunidades o projeto piloto da grife social que estava sendo criada – OMUNGA.

OMUNGA vem do dialeto angolano “umbundo” e significa unidade, união e coletividade. Seu objetivo é articular a sociedade a fim de criar melhores condições de educação para crianças que vivem em regiões de extrema necessidade no Brasil e no mundo e mobilizar a consciência social e a prática da compaixão.

Nos projetos da OMUNGA não se tem a pretensão de simplesmente doar recursos e materiais didáticos de forma assistencialista e sem continuidade. O objetivo é dar o primeiro passo e estabelecer contrapartidas com todas as camadas da comunidade beneficiadas, a partir do investimento na formação de lideranças locais para que estas possam sustentar e fomentar seu próprio desenvolvimento.

Nos pequenos e distantes municípios beneficiados no Estado do Piauí com o projeto “Escolas do Sertão” (Betânia do Piauí e Curral Novo), por exemplo, pais e professores ficaram responsáveis por buscar recursos para os insumos da construção, o poder público ficou responsável pela mão de obra e outros insumos, e a OMUNGA, por meio da venda de seus produtos, neste caso, camisetas, levantar recursos e doações para aquisição de livros, móveis e computadores, além de buscar a capacitação de professores para estimular o uso das bibliotecas e manutenção da gestão do acervo de livros.

Já do outro lado do oceano, em Moçambique, onde será construída a terceira biblioteca por meio do próximo projeto “Livros para África”, o engajamento comunitário foi ainda mais rico. Em função da área de isolamento onde está localizada a comunidade de Boroma e do seu contexto econômico, foi formada uma comissão de pais para construir os milhares de tijolos à base de barro e capim, além do envolvimento do poder público e de algumas empresas locais.

Deste modo, com estas iniciativas que são realizadas somente em função dos fantásticos voluntários e das pessoas e empresas que acreditam em nossas ações e literalmente, vestem a camiseta, creio que eu esteja paulatinamente no caminho daquilo que busco como realização pessoal.

Sou frequentemente questionado sobre porque atuar em outras cidades, estados e países ao invés de nutrir esforços para ajudar a enfrentar os problemas de Joinville, minha cidade natal e admito quando visito bairros como Juquiá, Canaã, Jardim Paraíso e Jardim Edilene, também me questiono. E é por isto que parte dos recursos obtidos com as vendas realizadas para pessoas de Joinville, serão revertidos para projetos de educação de nossa cidade.

Contudo, me conforta saber que, além de sermos o vigésimo quinto PIB do país (IBGE-2010), temos aqui uma legião de voluntários, empresas, associações, ONG’s, congregações religiosas, empreendedores sociais, investidores anônimos e excepcionais projetos, como é o caso do projeto Bombeiro Mirim (Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville), Jovens de Atitude (Instituto Carlos Halberto Hansen) ou as senhoras da Rede Feminina de Combate ao Câncer, além de pessoas que na sua humildade, e, sobretudo, proatividade, nos enchem de orgulho e outros nobres sentimentos, tal como Abigail do Rosário (Casa da Mãe Abigail) e Gilson Soares (Lar Emanuel), só pra citar apenas alguns exemplos.

E como Joinville é uma das cidades consideradas mais prósperas e com um dos melhores índices de qualidade de vida do Brasil, depois de muito refletir, confirmo minha escolha de concentrar as iniciativas de empreendedorismo social da Omunga em regiões praticamente desassistidas de recursos básicos para o desenvolvimento humano, via acesso à informação e educação.

Como todos nós, eu bem sei que nem tudo é perfeito por aqui, mas por fim, acredito que a solidariedade não pode ser bairrista e nem ter fronteiras. Quanto mais nos doarmos em qualquer canto do mundo, menos necessitados existirão e que ao encurtar a distância entre aqueles que precisam e os que desejam oferecer algum auxílio, estamos realmente fazendo parte de algo melhor. Esta sensação de plenitude que nos é oferecida como recompensa é o que realmente vale a pena, mesmo considerando que nada é definitivo. Afinal, todos podem ser agentes de mudança para um mundo melhor. Basta agir. Agora.”

Roberto Pascoal

Empreendedor Social