Com o objetivo de atualizar conhecimentos e construir novas conexões, nos dias 06 e 07 de junho, participamos do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto 2018, que abordou o tema “Investir para Transformar”. Esse é um dos maiores eventos do setor de negócios sociais do Brasil e é realizado pelo Instituto de Cidadania Empresarial – ICE, Impact HUB de São Paulo e VOX Capital.

Para a OMUNGA, surgiram valiosas conexões e a lição que fica diante dos desafios expostos é que precisamos continuar fortalecendo nossas convicções, propósitos e objetivos, potencializando cada vez mais a excelência de execução.

Evolução do setor de negócios sociais

Índia: referência mundial no segmento

Mais de 1.000 pessoas lotaram o teatro do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, para ouvir Amit Bhatia, empreendedor indiano e formador de jovens empreendedores. Ele abriu o Fórum apresentando dados do setor no mundo e explicando como a Índia se tornou referência mundial em negócios sociais por conta da vulnerabilidade em seu país, que possui 1,3 bilhão de habitantes. Também falou sobre o histórico modelo de microcrédito que existe há 40 anos e os ícones do empreendedorismo social, como é o caso de Muhammad Yunus, conhecido como “banqueiro dos pobres” e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006 por sua atuação no combate à pobreza.

Na sequência, os organizadores apresentaram a evolução do setor no Brasil com o surgimento de novos empreendedores sociais e o amadurecimento daqueles que atuam há mais tempo, como é o caso da Moradigna e da Aceleradora Quintessa.

Relação entre empreendedores e investidores

O Brasil conta com aproximadamente 60 incubadoras e aceleradoras, investidores familiares e privados, empresas que criam esse “match” entre empreendedores e investidores, a exemplo da NEXO, e fundos de investimentos, como a VOX Capital, que nos veem como oportunidade de negócios, ao invés de “rebeldes com causas, mas sem planos de negócios”.

Além disso, há muitos mentores, consultores e organizações que atuam na formação de professores, como faz o Instituto de Cidadania Empresarial. Entre outras atividades, o ICE dissemina e fortalece as atividades de docência junto às temáticas de empreendedorismo social, beneficiando 74 professores de todo o Brasil para contribuir com o surgimento de novos empreendedores sociais.

O evento trouxe, ainda, dados que proporcionam mais entendimento do fortalecimento do setor, como é o caso do Mapa de Impacto 2017 e o Relatório Chamada de Casos Incluir 2017. Na oportunidade, o SEBRE também lançou as seguintes publicações:

  • Pesquisa Nacional sobre Aceleração de Negócios de Impacto: Um olhar sobre as práticas atuais, feita em parceria com o Pnud;
  • Gestão do Conhecimento no Ecossistema de Negócios de Impacto no Brasil, que apresenta 21 estudos desenvolvidos por atores do ecossistema de negócios de impacto;
  • Retrato dos Pequenos Negócios Inclusivos e de Impacto no Brasil, que detalha 857 casos de empreendedores de negócios inclusivos e de impacto social, feito em 2017.
    Após essa primeira enxurrada de informações, tivemos a difícil tarefa de escolher as próximas atividades entre palestras, mesas redondas e rodadas de negócios, todas com assuntos fascinantes.

Como fazer acontecer?

grupo de pessoas sentadas em cadeiras enquanto prestam atenção em um homem falando no microfone em fórum de empreendedorismo social

Entre as abordagens, nada de propósito, causa, sonhos e boas intenções. As discussões estavam direcionadas sobre como fazer tudo isso acontecer por meio de modelos e mapeamento de negócios, transição de ONG para negócios de impacto, empreendimentos que envolvem raça e gênero, meio ambiente, saúde, rodadas de negócios, burocracia dos contratos, investimentos privados e familiares, incubadoras, aceleradoras, tecnologias para medição de impactos, dificuldade de equilibrar resultados econômicos e mensuração de impactos, e como o poder público pode fazer parte desse ecossistema.

Com essa fantástica programação, foi impossível participar de toda a agenda, mas como expectador das atividades em que estive presente, destaco as seguintes questões:

Nem tudo precisa ter larga escala

No meio das startups, inclusive as sociais, é comum a intenção da larga escala, incluindo padrões mundiais, visando a tornar-se um unicórnio brasileiro (empreendimentos que chegam a valer mais de 1 bilhão de dólares). No caso da OMUNGA, focamos intercalar entre as regiões mais carentes do Brasil e do mundo. Durante algumas falas do evento, fui incentivado a desapegar dessa ideia macro. Precisamos fazer nosso trabalho bem feito, testar, validar, para depois aumentar o tamanho do sonho, tendo cada vez mais estrutura e impactos reais, concretos.

Foco no core business

Durante muito tempo, fiquei pensando no modelo legal ideal para fazer a OMUNGA “rodar”. Um CNPJ privado? Uma ONG? Parcerias? MEI? E, ao mesmo tempo, nutria a angústia pelo fato de nosso país não ter uma formalização que legitime nossa atividade. Esqueçam! Coloquem a causa no centro de tudo e faça como for possível. Claro que sempre bem amparado por um bom advogado e contador. Aliás, já começam a surgir profissionais especialistas para atender nosso setor.

Mas não adianta queimar muito a cabeça com isso. O principal é pensar em um modelo que gere faturamento e impacto, e, depois, buscar uma adequação com o que for possível. Isso é, foco no core business, na problemática social que deve ser resolvida.

Viabilidade econômica e mensuração de impacto

Esse equilíbrio ainda é um desafio para boa parte dos empreendedores e não é à toa que os que atingem a maturidade de uma operação com resultados econômicos sustentáveis conseguem viabilizar impactos sociais mais sólidos e com poder de escala, como é o caso do 4You2.

O foco deve estar nas duas coisas. Nem sempre um negócio social é um bom negócio, especialmente quando há desequilíbrio entre a dimensão social (causa) e o modelo de negócios (maneira de viabilizar o impacto). Alguns empreendedores possuem mais afinidade com a causa, como é meu caso, outros na viabilidade econômica.

Nesse contexto, sócios com características distintas ou conselheiros atuantes podem fazer toda diferença, porque uma coisa sem a outra não prospera. Dica fundamental: viabilidade econômica e mensuração de impacto.

Participação do Governo Federal no debate

O secretário de Inovação e Novos Negócios do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), Marcos Vinícius de Souza, participou do evento e debateu com outros especialistas os desafios para ampliar o número de empreendimentos que têm impacto socioambiental positivo no país. Uma das vantagens dos negócios sociais é a desburocratização e maior autonomia para resolução de problemáticas sociais com grandes impactos e investimentos menores.

Particularmente, eu ainda não havia participado de uma discussão na qual o governo federal fizesse parte desse ecossistema. No entanto, felizmente, percebe-se uma crescente discussão sobre como o setor pode se tornar política pública e como o poder público pode impulsionar empreendimentos sociais por meio da aquisição de seus produtos e serviços.

Rejuvenescimento das organizações sociais

Foi ótimo perceber o rejuvenescimento das organizações sociais. Constatar que as ONGs vitimistas, derrotadas ou fraudulentas se transformaram em negócios de impactos vitoriosos. Notar que “ongueiros” se tornam empreendedores sociais que estufam o peito ao anunciar sua profissão, como é o meu caso. Muita inovação, visão de negócios, autossustentabilidade e mensuração de impacto, entre muitos empreendimentos que deram os primeiros passos na filantropia tradicional, mas que, até então, estavam limitados pela falta dessa visão de negócios.

Nesse contexto, as ONGs tradicionais, movimentos locais e pontuais mantêm a sua importância, pois é na união das microrrevoluções que acontecem grandes mudanças. Portanto, se você atua ou está iniciando em algum projeto comunitário de menor escala, por favor, siga em frente! Comece onde você está, use o que tem e faça o que pode, acreditando nesse fantástico universo de transformação social. Então, jogue duro e pise fundo e, quem sabe, você estará a um passo de empreendimentos maiores.

Superação de desafios

roberto pascoal, empreendedor social e mentor da omunga mostrando livros à crianças negras em situação de vulnerabilidade social

Os desafios no setor de empreendedorismo social são gigantes, nem sempre acertamos e temos muito por aprender. Mas nossa persistência para beneficiar uma parcela das 17 milhões de crianças que vivem em situação de extrema pobreza no Brasil, por meio de uma educação inclusiva, não diminuirá.

E, como não conseguimos fazer isso sozinhos, precisamos cada vez mais do seu engajamento, adquirindo nossos produtos, atuando como voluntário e multiplicando nossas ações. Juntos, sem dúvida, poderemos construir um mundo melhor por meio da educação.Obrigado por visitar nosso blog!

Ah, e se você não pôde participar do Fórum pessoalmente e quer assistir algum trecho, clique aqui.

grupo de pessoas abraçadas posando para foto em encontro sobre empreendedorismo social

Roberto Pascoal

Empreendedor Social e Presidente do Instituto OMUNGA

roberto.pascoal@omunga.com