A consciência de olhar para o mundo

Polly Niehues

Recentemente acompanhei de coração atento a série Black Earth Rising, que mistura realidade e ficção para contar a história do genocídio de Ruanda, em 1994. Conhecido como um dos mais aterrorizantes momentos da história da humanidade, onde quase um milhão de vidas foram perdidas, das quais cerca de dez mil eram bebês e crianças. E ocorrido durante o curto período de 100 dias, ou seja, apenas três meses. Olhando além da complexidade dos conflitos na região à época, uma reflexão mais pura e simples foi o que ficou bastante próxima de mim: em essência, a causa desse imenso e doloroso atentado à vida foi a separação.

No seriado, a protagonista é sobrevivente do genocídio e não tem consciência de sua origem. Não há registro algum de seu nome, sua família, se era Tutsi ou Hutu, inocente ou culpada. Estarmos conscientes de nosso histórico, é claro, é importante para o percurso, para o nosso desenvolvimento. E, na história, ela é solicitada a ajudar e olhar para toda aquela dor. Quando olhamos para o mundo e para eventos de dimensões tão grandiosas, fica mais claro perceber as dores da história que são reproduzidas em nossa vida diária em pequena escala.

 

 

Portanto, me identifiquei, dadas as devidas proporções, por ser filha de uma mulher órfã, negra e sem privilégios. Embora minha mãe nunca tenha realmente buscado saber de sua origem, quem esteve mais curiosa quanto a isso fui eu. Para continuar, para evoluir. Para buscar a união mais profunda entre o passado e o futuro. Para ligar os laços esquecidos e integrar a vida independentemente das dores vividas, curando a ilusão de estarmos soltos. Assim, não precisamos mais nos defender. Nem atacar. Podemos nos reconciliar, de fato, e descansar.

Digo isso porque percebi ao longo dos anos que tentamos, constantemente, nos diferenciar, a todo custo. Sejam tribos, fronteiras, línguas, leis, culturas, crenças, cores, políticas ou economia. Como humanidade, ainda não nos reconhecemos como iguais. Continua desafiador criar igualdade racial e social. Continua desafiador valorizar e respeitar a pele negra e a pele vermelha. Continua desafiador criar união. A história da humanidade, até aqui, continua triste.

A partir do momento em que nos tornamos conscientes de que a única forma de melhorar o mundo em que vivemos é fazer o que está ao nosso alcance (e até fora dele), e contar com a participação de todos que podem ajudar de alguma forma, a situação atual pode vir a ganhar uma nova cara, mais feliz. Portanto, se você é privilegiado ao ponto de não precisar de ajuda para uma estrutura básica de vida, sim, você é eleito a ajudar. Da forma que souber, com o que aprendeu e viveu até aqui. Não tenhamos mais receios, nem sejamos mais guiados pelo medo.

O retorno é de grande crescimento pessoal e social. A alegria de compartilhar, o respeito ao outro, o reconhecimento da dignidade do outro, o equilíbrio entre todos os seres. Participar de projetos voltados para o equilíbrio da desigualdade social é repensar os valores distorcidos que a sociedade planta e rega diariamente dentro de nossas mentes e corações. No seriado, a protagonista atravessa todas as suas dores para ajudar a levantar a verdade sobre a história do genocídio. Ela decide agir ao invés de se acomodar atrás dos medos e cicatrizes. Ela transforma.

 

 

É importante questionar o mundo com os próprios sentimentos, é preciso estar consciente. Usar as limitações como desafios, colocar-se vulnerável. A cor da pele, o formato dos olhos, as crenças religiosas e os privilégios culturais não fazem de ninguém diferente do outro em seu valor humano intrínseco. Vale a pena praticar o olhar consciente para o mundo ao nosso redor. Independentemente das suas raízes. Ou das minhas. Não há nada a diferenciar. Há apenas que reconhecer e religar. Olhar conscientemente para o mundo traz liberdade e força. Sabe essa depressão e essa ansiedade que te acometem diariamente? É falta de viver em comunidade. De ajudar e de se permitir ser ajudado. De apoiar e ser apoiado, emocionalmente, fisicamente. Vamos dar o primeiro passo!

O mundo é o que nós somos. E, afinal, de que mundo você quer ser?

Sou Pollyanna Gonçalves Niehues, redatora voluntária da Omunga desde 2012.

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