As primeiras Expedições de 2026 do Projeto OMUNGA no Monte Roraima | Jan. e Fev./2026

As duas primeiras Expedições OMUNGA de 2026

Território, memória e presença aos pés do Monte Roraima

O território sempre vem primeiro.

Foi com esse princípio que a OMUNGA realizou, nos meses de janeiro e fevereiro, as duas primeiras expedições de 2026 no município de Uiramutã, localizado na região da Raposa Serra do Sol, no extremo norte do Brasil, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Cidade atendida pelo Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Mais do que grandes deslocamentos e vivências profundas, as expedições representaram jornadas de silêncio, escuta, presença e construção de vínculos em um dos territórios culturalmente mais ricos e, ao mesmo tempo, mais desafiadores do país.

Ao lado do fotógrafo documental e humanitário Érico Hiller, Roberto Pascoal, Empreendedor Social e Fundador da OMUNGA, percorreu trilhas da Floresta Amazônica, serras e a savana brasileira para chegar a comunidades e caminhos ancestrais da região, registrando, por meio de textos e imagens, histórias, rostos e memórias que farão parte do Livro Fotográfico do Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Um livro que é uma voz para o futuro

O Livro Fotográfico nasce com a voz do território e não com a voz de quem promove o projeto.

Desde os primeiros diálogos sobre essa iniciativa, ainda em 2020, com lideranças tradicionais, os Tuxauas, outros anciãos e Professores, sempre houve uma grande preocupação com a legitimidade das informações e com a linha tênue entre a curiosidade, as intenções de uma entidade formada por pessoas sem etnia, no caso a OMUNGA, e os limites da confiança necessária para acessar memórias e histórias tão valiosas.

Ao longo do tempo, fomos alertados sobre a responsabilidade envolvida no registro dessas narrativas.

Existem muitas histórias de jornalistas, empresários e visitantes que passaram pelo território, coletaram informações, fotografias e relatos e depois desapareceram, sem dar retorno às comunidades. Em alguns casos, inclusive, fazendo uso inadequado dessas imagens e informações. Afinal, Uiramutã também é conhecida como a cidade mais vulneráveis do país (IBGE/2022).

Essa preocupação sempre esteve presente nas conversas.

Ela apareceu em reuniões com Tuxauas, em Assembleias, entre anciãos e em encontros com Professores.

Somado a isso, tudo o que foi vivido junto aos povos Macuxi, Patamona e Ingarikó, em diferentes comunidades, nos cinco Ciclos de Desenvolvimento de Professores executados até o momento, nas expedições voltadas exclusivamente à articulação e à produção de conteúdos, na subida ao Monte Roraima e nos diálogos com instituições como a Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIR), o Conselho Indígena de Roraima (CIR), a Universidade Federal de Roraima (UFRR) e a FUNAI, foi desenhando, pouco a pouco, o caminho delicado e sensível para a elaboração deste livro.

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Entre todas as recomendações, inclusive legais, como as normas que regem o registro fotográfico de povos indígenas, o livro foi, quase sem percebermos, tomando forma.

Inevitavelmente, nossas percepções, gostos, ansiedades, insights e desejos se misturam ao processo criativo. Mas, a cada novo impulso ou ideia, uma pergunta se impõe: isso é meu ou é do território?

Isso os representa ou representa apenas minhas/nossas ideias?

Nos últimos meses, os dois questionamentos passaram a nos acompanhar.

Em uma conversa sobre o projeto, a fundadora de uma editora nos alertou:

“Cuidado para não usar o território para sanar suas próprias vontades, desejos ou impulsos criativos.”

Na mesma linha, durante a 44ª Assembleia Geral dos Tuxauas, um deles questionou Roberto Pascoal:

“Que garantia o senhor nos dá de que a nossa voz não será confundida com a sua?”

O próprio território indicou quais lideranças e memórias deveriam ser registradas, assim como o desejo de que mensagens para as próximas gerações sobre hábitos, cultura, tradições, orações, contos e histórias fossem reunidas em uma publicação.

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Roberto Pascoal passou, então, a ouvir, gravar e anotar esses relatos, sempre compartilhando com Tuxauas e anciãos os caminhos dessas escutas.

Assim, o livro que compõe o Projeto OMUNGA no Monte Roraima está sendo construído durante a própria jornada.

Ao lado de Roberto Pascoal, Érico Hiller acompanha esses diálogos e, com a permissão dos entrevistados, realiza registros fotográficos carregados de sensibilidade.

Não se trata apenas do olhar do fotógrafo.
Não se trata apenas de um clique.
Não se trata apenas de uma imagem bonita.
Não é uma ação unilateral.

Cada pessoa fotografada entende o porquê, o contexto, terá sua foto e seu texto revisados por ela mesma e saberá onde esse material será publicado. Além de receberam um exemplar da publicação.

Elas autorizam e fazem parte desse movimento de memória.

Para quem fotografa, participar desses encontros e compreender o significado das histórias compartilhadas faz com que a fotografia também passe a ter outro peso. Torna-se parte da mensagem que essas lideranças desejam deixar para as próximas gerações.

Passa a ter alma.

Tudo ganha mais profundidade, mais sentido e mais responsabilidade.

Sobre Érico Hiller

Érico Hiller é fotógrafo documental brasileiro, formado em Comunicação Social e pós-graduado em Fotografia.

Movido por um olhar humanista e pelo desejo de revelar as desigualdades que marcam a condição humana, dedica-se desde 2003 a projetos autorais que unem arte, empatia e transformação social.

Já fotografou para instituições como UNICEF, UNESCO, ActionAid e National Geographic, e teve suas obras exibidas em espaços como o Museu do Amanhã, além de galerias internacionais.

Entre seus livros mais recentes estão Água (2020) e Do Desespero à Dignidade (2024).

Em suas jornadas por países como Etiópia, Nepal, Groenlândia, Índia e Uzbequistão, Érico traduz, em imagens, a beleza e a resistência humana.

Um trabalho que, assim como o da OMUNGA, busca inspirar uma consciência mais coletiva, humana, o espírito colaborativo, ampliar o olhar sobre alguns contextos, lugares e pessoas desconhecidas ou pouco conhecidas. Mostrar riquezas onde, em um primeiro momento, há quem veja apenas vulnerabilidade. Um novo olhar sobre o mundo, com uma consciência ampliada, fomentando um mundo melhor para todos e, principalmente, humanos mais humanos.

Foto com Érico Hiller.

Desde os primeiros diálogos com a OMUNGA, em 2020, percebeu-se em seu olhar a sensibilidade e a responsabilidade necessárias para integrar a equipe que produzirá este livro. Um registro que dialogará com as próximas gerações sobre aquilo que tem sentido e significado para o povo de Uiramutã.

As duas primeiras expedições de 2026

Entre os meses de janeiro e fevereiro, Roberto Pascoal e Érico Hiller estiveram em Uiramutã para momentos de escuta e registros fotográficos.

A primeira expedição foi voltada às comunidades indígenas mais próximas de Uiramutã, em território da etnia Macuxi, como as comunidades Willimon, Monte Moriá I, Maturuca e Laje de Uiramutã, comunidade indígena que leva o mesmo nome da cidade.

Durante essa jornada, estiveram com lideranças marcantes como Tuxaua Jaci e Tuxaua Orlando, que participaram do longo processo de demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, uma luta que se estendeu por aproximadamente 30 anos.

Também ouviram a anciã Dona Candinha, com suas palavras de fé e sabedoria.

E a Professora Tereza, uma liderança feminina formada desde pequena para se tornar uma voz forte de sua etnia e de sua comunidade.

Cada uma dessas lideranças trouxe reflexões profundas sobre identidade, pertencimento, sobre a relação entre o povo e o meio ambiente, sobre a importância da língua e da palavra dada, sobre a união entre os povos e sobre a relação com Deus.

Também falaram sobre aquilo que, atualmente, parece afastar as pessoas umas das outras. Aquilo que, muitas vezes, torna os seres humanos menos humanos.

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Na segunda expedição, uma jornada ainda mais intensa aconteceu em território da etnia Ingarikó, na região da Serra do Sol, mais próxima ao Monte Roraima.

Ali, o território revelou outra dimensão da vida indígena e de sua relação com o ambiente.

Foram dias de caminhada pela mata, vivendo como vivem, percorrendo florestas fechadas, comunidades e casas de famílias, bebendo água dos rios e observando atentamente o modo de vida e a engenharia social dessas comunidades.

Sentimo-nos mais próximos.

Mesmo sabendo que ainda estamos distantes de compreender plenamente suas referências, percepções, dores e conhecimentos ancestrais.

Como costuma dizer Roberto Pascoal:

“O infinito de um indígena não cabe dentro de um karaiawa, de um homem sem etnia.”

Durante cinco dias de caminhada pela floresta, a equipe passou pelas comunidades Karamanpatai, Mapaé e Arikaman, até chegar à Comunidade Serra do Sol, onde permaneceram por mais cinco dias.

Caminhadas, por vezes, exaustivas e com muito silêncio.

Conduzidas por aqueles que conhecem profundamente cada trilha, cada rio, cada som da floresta e cada história daquele território. Os membros da etnia Ingarikó.

Regiões em que não se chega apenas com mapas.

Chega-se com respeito.

Chega-se com autorização.

Chega-se com tempo para ouvir.

No tempo e na vontade do território.

Uma atmosfera perfeita para estarmos mais sensíveis à escrita e aos registros fotográficos.

A termos mais consciência sobre nossa responsabilidade diante desse povo.

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Reconhecimento ao território

As duas primeiras expedições de 2026 só foram possíveis graças à confiança e ao acolhimento das comunidades locais.

A OMUNGA registra aqui seu profundo reconhecimento aos Tuxauas, lideranças, Professores e moradores da região, que permitiram nosso acesso e presença, além de compartilharem suas histórias com tamanha generosidade.

Também reconhecemos o trabalho sensível e comprometido de Érico Hiller, cuja trajetória na fotografia documental contribui para que esses registros sejam realizados com respeito, profundidade e responsabilidade.

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Uma história que continuará sendo escrita

Nos próximos meses, novas expedições como essas serão realizadas.

Entramos agora em uma fase decisiva para a elaboração do Livro Fotográfico do Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

A previsão é a impressão de aproximadamente 1.000 exemplares, que serão distribuídos para escolas da região de Uiramutã, lideranças tradicionais, Tuxauas, bibliotecas do Brasil e instituições ligadas à causa indígena e à preservação do meio ambiente, no Brasil e no exterior.

Outro aspecto marcante da obra é que ela será publicada em cinco idiomas:

• Macuxi
• Ingarikó
• Patamona
• Português
• Inglês

O foco principal serão as línguas maternas dos povos originários, para que permaneçam vivas.

Pois, o livro é, prioritariamente para o território.

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Sobre o Projeto OMUNGA no Monte Roraima

O livro fotográfico é apenas um dos produtos que compõem o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

A iniciativa também inclui:

• 06 ciclos de desenvolvimento de Professores voltados ao incentivo à leitura e à produção de memórias por Professores e alunos
• distribuição de livros em escolas e comunidades indígenas, especialmente de autores indígenas
• produção de um documentário de média-metragem com a subida ao Monte Roraima realizada por Professores e lideranças indígenas
• curso virtual sobre educação e cultura indígena, com livre acesso pelo YouTube
• criação de um espaço de leitura denominado Espaço de Memória, em parceria com a Prefeitura e lideranças indígenas de Uiramutã

Foto de Érico Hiller para o Projeto OMUNGA no Monte Roraima.

Como fazer parte do projeto

Se você ou a empresa da qual faz parte acreditam que educação, memória e cultura também constroem futuro, especialmente em regiões distantes ou isoladas do Brasil, conheça mais sobre o Projeto OMUNGA no Monte Roraima e demais iniciativas da OMUNGA.

Este projeto é viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, e pode contar com doações de pessoas e empresas de todo o Brasil.

Para saber como apoiar, basta acessar aqui para mais informações.

O Projeto OMUNGA no Monte Roraima é realizado pela OMUNGA (@omunga_oficial), em parceria com o Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, com apoio da Martinelli Advogados e patrocínio da Bayer Brasil, WEG e Deloitte Brasil, além de diversos parceiros e apoiadores.

Agradecemos muito por visitarem o nosso blog.

Até a próxima.

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