Após Melgaço, expandimos a Expedição!

As experiências vividas na cidade de Melgaço, no estado do Pará, foram suficientes para uma ousada mudança de planos.

A ideia inicial da Expedição OMUNGA era visitar 03 cidades: Melgaço no estado do Pará e Marajá do Sena e Fernando Falcão, cidades do estado do Maranhão. Primeira, segunda e quarta cidades mais vulneráveis do país, respectivamente.

Contudo, os contrastes entre as riquezas humanas e naturais com as necessidades apresentadas por professores, agentes comunitários e poder público de Melgaço fortaleceram as convicções de que os projetos da OMUNGA podem fazer sentido para muitas cidades brasileiras semelhantes a Melgaço, especialmente após superarmos a crise sanitária atual.

 

 

Diálogos com o time e conselheiros da OMUNGA, além de dezenas de mensagens de incentivo de doadores, assinantes e investidores, nos encorajaram a ir além. Ao invés das 03 cidades mais vulneráveis do país, passaríamos a focar nas 10 cidades, potencializando nosso entendimento em relação às cidades mais vulneráveis do Brasil.

Foi uma decisão que envolveu até alguma emoção, pois impactaria importantes atividades em andamento na OMUNGA e envolveria questões financeiras. Tanto é que essa decisão foi estendida até o último minuto.

 

 

Quando eu retornava de Melgaço, teria que trocar de barco em Breves, cidade intermediária de embarque para diversas cidades do interior do Pará. Ali tive que tomar a decisão. Trocando mensagens com o Coordenador da Projetos da OMUNGA, Luiz Romão, eu ainda refletia seu mantinha os planos e seguia para Marajá do Sena e Fernando Falcão, interior do estado do Maranhão, ou se mudava o rumo da expedição indo até Chaves, no estado do Pará, e depois seguindo para Uiramutã, interior de Roraima. Lembro que comentei com o Romão: “Preciso de um sinal para tomar essa decisão.”

 

 

Minutos depois, recebi uma ligação com a confirmação do aporte de uma multinacional no projeto OMUNGA na Amazônia, viabilizado via Lei de Inventivo à Cultura. Além disso, um membro da tripulação da embarcação, que eu havia conhecido no trajeto Melgaço-Breves, para o qual comentei sobre a ideia de ir até Chaves, me chamou para dizer: “Liguei para um primo que pode fazer você chegar até Chaves e ele pediu seu número de telefone”.

Eram os sinais que eu precisava para dar uma boa “encorpada” na Expedição OMUNGA. Agora, rumo às 10 cidades mais vulneráveis do país.

 

 

Na hora, comprei uma passagem para uma viagem de 13 horas de barco entre Breves (Pará) e Macapá (Amapá), para depois realizar outra viagem de barco de 08 horas até a cidade de Chaves (Pará), que ocupa a quinta posição no ranking de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM).

 

As observações e as legendas sobre os Indicadores Sociais estão no final do post.

 

Foi uma viagem linda de 13 horas de barco!

Além de observar mais comunidades ribeirinhas, fiquei submerso na cultura paraense com direito a observar danças, ouvir músicas, ouvir histórias e relatos sobre a vida do paraense e tive o privilégio de ser reconhecido por duas pessoas naquela embarcação. Uma que assistiu uma palestra minha em Curitiba/PR, e outra que nos conheceu por meio das redes sociais. Me senti honrado.

 

 

Naquela noite eu não consegui dormir, pois não queria perder nada. A melhor forma de conhecer a cultura de um povo é estando perto dele.

Partimos às 18 horas e, por volta das 07 horas da manhã do outro dia, eu chegava em Macapá (Amapá).

 

 

O entusiasmo não despistou o cansaço. Fui descansar num hotel, já que a próxima embarcação sairia às 17 horas, ruma a Chaves (Pará).

Me senti um verdadeiro “Indiana Jones” quando percebi o contexto do pequeno porto, da embarcação, do trajeto, mas logo já estava apaixonado pelas pessoas que estavam lá.

 

 

Era permitido viajar no teto da embarcação e eu fui pra lá. Em algum momento, observando as estrelas e a lua, num momento quase que poético, quando eu me questionava sobre a decisão de expandir tanto a expedição, um pescador que estava numa roda com outros pescadores me abordou: “Ei, sente aqui conosco para conversar e não ficar aí sozinho”. Quando me aproximei ele estendeu a mão com um prato de sopa.

 

 

Assim que amanheceu, percebi que o Rio Amazonas, que banhava toda cidade, possuía uma imensidão de mar. Era um mar de água doce.

Como o futuro Prefeito estava ausente da cidade, o futuro Secretário de Educação (no dia 1º de janeiro/21 haverá mudança do governo municipal) estava à minha disposição e fizemos uma longa caminhada pela cidade, quando aprendi que as atividades predominantes no município giram em torno da pesca, açaí, farinha, dos empregos gerados pelo poder público e que, apesar de Chaves ser a cidade com maior criação de búfalos do país, como o abatimento é feito em outra cidade, principalmente em Macapá, o destaque nacional não gerava recursos para a cidade, pois a tributação ocorre onde o búfalo é abatido. A cidade não possui comunidades indígenas, mas dezenas de vilas ribeirinhas.

 

 

A estrutura e arquitetura da cidade me lembraram Atalaia do Norte (AM), terceira cidade mais vulnerável do país, a qual beneficiamos por meio do Projeto OMUNGA na Amazônia, e isso me fez sentir um pouco “em casa”.

Também ouvi relatos emocionantes sobre pais que “trocam” suas filhas por pratos de comida, sobre outros tipos de violências sexuais como pedofilia nas zonais rurais distantes da cidade, e como o trabalho infantil parece mais vantajoso para alguns pais, que preferem seus filhos de 6 ou 7 anos nas demandas da produção do açaí do que nas escolas. Também ouvi como as drogas têm se tornado um caminho sedutor para jovens com poucas perspectivas e sobre a dificuldade de acesso a informação e formação de professores.

 

 

Na roda de conversa com professores, eles compartilharam que, por vezes, se sentem impotentes diante de tantos desafios. Também comentaram sobre os longos deslocamentos de crianças e professores para irem à escola, onde alguns chegam a usar carro de búfalo. Apesar disso, logo percebíamos que as dificuldades não eram tão grandes quanto as potencialidades humanas, quando muitos disseram: “Não podemos deixar de ensinar nossas crianças a serem solidárias, para pensar em outras pessoas.”

 

 

Também encontramos muitas pessoas felizes com a simplificação da vida, dando importância para paz, amor, carinho, dedicação, família e saúde, de acordo com as palavras de Dona Maria, da comunidade rural de São Joaquim.

Inclusive, muitos desconheciam ou não se importavam com sua 5ª posição no ranking de cidade mais vulnerável do país e, ainda, houve quem dissesse que se sentia feliz por viver numa das cidades mais “pobres” do Brasil.

A vida em Chaves parece mais simples.

 

 

Assim como em Melgaço, percebi uma enorme generosidade nas pessoas que eu conhecia. Seja numa viagem de barco, almoço no Restaurante do Junior e da Natália que fica no trapiche principal (recomendo muito), caminhada na praia de água doce ou numa conversa com pescadores no trapiche principal.

Experiências da generosidade da população de Chaves são fáceis de serem vividas.

 

 

Um dos últimos compromissos fortaleceu minhas percepções positivas. Ao me encontrar com a Secretária de Educação em exercício, que deixará o cargo no dia 31 de dezembro/20, ao conhecer o projeto, a mesma não poupou esforços para engajar o futuro Secretário de Educação e realizamos a reunião nós três juntos.

 

 

Em cidades desse contexto, estar à frente do poder público envolve muito poder, já que é a maior fonte de renda e, por isso, é comum os processos de transição serem repletos de conflitos e tensões, o que não ocorreu naquele momento em Chaves.

De Chaves, levei a coragem para continuar a Expedição OMUNGA, para liderar a OMUNGA rumo às cidades mais vulneráveis do Brasil, o desejo de criar um projeto chamado “OMUNGA na Ilha do Marajó”, beneficiando as cidades de Melgaço e Chaves, presentes na Ilha do Marajó, no estado do Pará, e a reflexão sobre a simplificação da vida.

 

 

O que realmente importa?

O que é meu e o que é dos outros?

Qual é a verdadeira definição de riqueza?

Estou reavaliando tudo isso e espero poder compartilhar boas ideias e reflexões com vocês nos próximos textos.

Obrigado por visitarem nosso blog.

 

 

Não esqueça: o engajamento de vocês fará com que novos projetos da OMUNGA aconteçam onde mais crianças e professores poderão ser beneficiados. Acesse www.omunga.com e ASSINE o OMUNGA Clube ou DOE para o Instituto OMUNGA.

MUITO OBRIGADO! MESMO!

Roberto Pascoal
Empreendedor Social
[email protected]munga.com

 

 

Sobre os Indicadores Sociais:

(1) Cidades visitadas durante a Expedição OMUNGA 2020-2021.                                                                                                                        

(2) O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) considera três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. Os números são apresentados em forma de ranking entre os 5565 municípios brasileiros.                            

(3) O Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) considera três dimensões básicas do desenvolvimento humano: infraestrutura urbana, capital humano, trabalho e renda. Quanto mais próximo de um, maior a vulnerabilidade.                                                       

(4) O Índice de Desenvolvimento Básico da Educação (IDEB) é o indicador criado pelo governo federal para medir a qualidade do ensino nas escolas públicas, com nota de 10 (melhor) a zero (pior).  Os campos sem registros representam cidades com número de participantes no SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) insuficiente para que os resultados sejam divulgados ou que não participaram ou não atenderam os requisitos necessários para ter o desempenho calculado. Pode ter ocorrido também solicitação de não divulgação, conforme Portaria Inep.                                   

(5) As cidades de Uiramutã (RR) e Chaves (PA) se apresentam na mesma posição, pois estão em empate no IDHM.