Expedição do Projeto OMUNGA no Monte Roraima | Nov./24 | 3° Ciclo

Da sensibilização à produção estruturada de memórias
Neste 3º Ciclo de Desenvolvimento de Professores do Projeto OMUNGA no Monte Roraima, a equipe da OMUNGA estruturou uma atmosfera intencional de acolhimento, escuta qualificada e produção organizada de escrita.
O 1º Ciclo foi dedicado à validação da escuta realizada junto às lideranças tradicionais, Tuxauas, Secretaria de Educação e comunidade escolar, assegurando que o projeto estivesse verdadeiramente alinhado às demandas do território. O 2º Ciclo apresentou caminhos literários para o registro de memórias, por meio de oficinas conduzidas por escritores, ilustradores e especialistas que ampliaram repertório, referências e possibilidades narrativas.
O 3º Ciclo, realizado entre os dias 11 e 18 de novembro, marcou uma nova etapa do projeto. Foi a transição da inspiração para a execução estruturada. A virada de chave para a ação.
Mais do que refletir sobre a importância do registro, era o momento de produzir. De organizar ideias, aplicar ferramentas, estruturar narrativas e iniciar, de forma concreta, a construção dos primeiros registros de memória do território.

Um novo nível de responsabilidade
O território já havia manifestado de forma clara o desejo de registrar suas memórias: “Primeiro queremos os livros com as nossas histórias, depois os livros de fora”, nos disse um Tuxaua em Assembleia de Lideranças Indígenas.
A partir daí, o desafio deixou de ser assistencial para se tornar mais crítico e profundo, exigindo maiores responsabilidades, além de ser técnico e humano ao mesmo tempo.
Durante o ciclo, ficou ainda mais evidente para o time da OMUNGA que há diferenças profundas na lógica de pensamento entre o homem sem etnia e os povos indígenas do território.
Já havíamos percebido isso no dimensionamento do tempo.
Para o indígena, o tempo é o tempo da floresta, o tempo da chuva, o tempo da colheita.
Para o homem sem etnia, o tempo é o do relógio, do cronograma, da produtividade, da eficiência, mesmo que isso o adoeça.
Também havíamos percebido a relação com a terra.
Na lógica indígena, a terra é mãe.
E mãe não se explora.
Cuida-se. Respeita-se. Honra-se.
Essa diferença de lógica também se revelou no processo de escrita.
Os professores traziam histórias riquíssimas na oralidade. Narrativas potentes, detalhadas, emocionantes. Mas, ao transpor para o papel, muitas vezes surgia um bloqueio. A métrica de pensamento era diferente. A organização linear exigida pela escrita ocidental nem sempre correspondia à forma como a memória era construída internamente.
O desafio era justamente esse:
Como transformar oralidade em narrativa escrita sem distorcer sua essência?
Como organizar sem ocidentalizar?
Como estruturar sem substituir?
Essas perguntas orientaram o desenho metodológico do 3º Ciclo.
Por isso, a equipe foi composta por um perfil mais técnico e complementar, envolvendo profissionais ligados à organização de pensamento, co-criação, design de ideias, desenvolvimento humano e mediação qualificada.
A intenção não era acelerar resultados ou padronizar entregas.
Era criar um ambiente seguro, afetivo, estruturado e respeitoso, onde a memória pudesse emergir com autonomia, clareza e consistência.

Criar sem se sentir engessado
A produção de memória exige vulnerabilidade.
Escrever sobre a própria cultura envolve responsabilidade com as lideranças, com os ancestrais e com a comunidade.
Por isso, a estrutura metodológica foi pensada para:
• Destravar bloqueios
• Desenvolver escuta ativa
• Organizar pensamento narrativo
• Criar confiança coletiva
• Estimular autonomia autoral
A presença de Monique Campos, profissional da área de desenvolvimento humano, foi estratégica. Era necessário cuidar da dimensão emocional do processo para que a escrita não fosse apenas técnica, mas verdadeira.
Ao mesmo tempo, o trabalho com design de pensamento e ferramentas estruturadas ajudou os professores a organizar ideias sem que se sentissem engessados.
Memória não é apenas lembrança.
Memória é construção consciente.
Memória é identidade.

Da folha em branco à consciência ampliada
O primeiro movimento foi trabalhar a escuta e a fluidez criativa, utilizando a história do próprio nome como exercício inicial.
Depois, entramos em ferramentas concretas:
– Mapa mental
– Chuva de palavras
– Categorização de elementos
– Estrutura de começo, meio e fim
– Definição de personagens, cenários e sentimentos
– Ouvir a si mesmo, desfazer-se de julgamentos próprios e alheios, permitir-se e deixar fluir
Não se tratava de ensinar “como escrever certo”.
Tratava-se de mostrar que escrever é organizar o que já existe dentro de cada professor.
Foi nesse contexto que a fala da professora Lidiane Murbak, da etnia Macuxi, filha do Tuxaua Orlando, sintetizou o que estávamos vivenciando:
“Eu sempre soube, conheci e reconheci a importância, o legado do meu pai para o povo Macuxi e para o território da Raposa Serra do Sol. Mas quando eu escrevi isso no papel, quando eu refleti sobre o que eu escrevia e depois eu lia e relia, parece que essa dimensão ficou muito m-aior. E só aí eu entendi a verdadeira importância do registro de memória.”
Essa consciência não nasce da teoria.
Nasce da experiência.
Ao final do ciclo, os professores já haviam produzido os primeiros registros estruturados que serviriam de base para os ciclos seguintes.
O 3º Ciclo foi o ponto de virada.
Aqui, a intenção virou material.

Impacto estruturante
Neste 3º Ciclo, por conta de agendas paralelas do movimento indígena, tivemos cerca de 117 participantes.
Ainda assim, o impacto é multiplicador. Cada professor atua diretamente com dezenas de crianças, alcançando aproximadamente 2 mil estudantes por meio de práticas reaplicáveis em sala de aula.
Quando um professor passa de ouvinte a autor, ele transforma a sala de aula.
Quando a memória entra na escola como material produzido pela própria comunidade, ela deixa de ser conteúdo externo e passa a ser identidade.
Este é o impacto real do 3º Ciclo.
Em resumo:
3º Ciclo de Desenvolvimento de Professores do Projeto OMUNGA no Monte Roraima
Local: Comunidade Indígena Willimon (etnia Macuxi)
Nº de Professores atendidos: 117
Nº de oficinas: A atividade foi coletiva, todos na mesma maloca
Horas de atividades: 25,5 h
Nº de livros distribuídos no 3º Ciclo (comprados e doados): 1.233
Nº de livros entregues no total ( 2º e 3º Ciclos – Não houve entrega de livros no 1º Ciclo): 2.358



Parceria que viabiliza impacto
O Projeto OMUNGA no Monte Roraima é viabilizado pela Lei de Incentivo à Cultura, com apoio do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, além do patrocínio de empresas que acreditam na educação como transformação estruturante.
Investir neste projeto é investir:
• Na valorização do professor como agente estruturante de transformação social
• Na preservação cultural indígena construída de dentro para fora, com protagonismo do território
• Em metodologia organizada, governança clara e impacto mensurável
• Em legado pedagógico permanente
• Na descentralização dos investimentos culturais e das políticas públicas, direcionando recursos para territórios que historicamente receberam pouco ou nenhum aporte dessa natureza
A Bayer Brasil, a Deloitte e a WEG são empresas que acreditam e fazem parte de nossos propósitos, além de pessoas de todo o Brasil.
Convite
Se sua empresa acredita que educação é investimento estruturante e não ação pontual. Se entende que professores são a base da transformação social.
Se reconhece que povos originários fazem parte da identidade do Brasil e merecem ser protagonistas de sua própria narrativa. Entre em contato com a OMUNGA.
É possível investir por meio da Lei de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, ou contribuir por doação direta.
Telefone: 47 3305 6716
E-mail: [email protected]
Porque memória organizada é cultura que permanece.
Um forte abraço do time da OMUNGA e até a próxima!

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